Um visionário do futebol numa biografia definitiva

Olá, pessoal!
Quando João Saldanha morreu na Itália, em plena Copa do Mundo de 1990, deixou órfãos todos os que, como eu, adoravam a figura do tremendo comentarista que ele era. E que deixara marcas indeléveis em todos os que gostam de futebol.
Saldanha ficara marcado, em minha vida de torcedor, por ser o treinador campeão pelo Botafogo em 1957. Depois, pelas histórias que a gente ouvia contar sobre ele. E, já adulto, por saber do envolvimento político dele, em prol de causas de igualdade entre os homens.
João era um profeta. Ainda hoje lembro o tom da voz cansada pelo cigarro e noitadas, muito trabalho e boêmia, ralação pelo Partidão, como André Iki Siqueira mostra, brilhantemente, em João Saldanha: uma vida em jogo (capa que ilustra este texto), editado pelo o IBEP – Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas/Cia. Editora Nacional.
O livro João Saldanha: uma vida em jogo, além de lindo – como naturalmente seria por ter a digital inigualável do designer Victor Burton –, é o que os apreciadores de leitura chamariam de livraço, nos dois sentidos que a gíria pode ter: é um alentado volume de 552 páginas e gostosíssimo de ler, cheio de informações novas sobre o João Sem Medo e com as múltiplas e variadas versões dos casos em que essa figura sem igual da vida brasileira se meteu em seus 73 bem-vividos anos.
Um detalhe da personalidade de Saldanha sempre me chamou a atenção e, ainda hoje, está vivo na cabeça de todos os que, mais atentos, percebem como o João sempre tinha razão no que falava.
Ele dizia coisas – nas rádios, tevês e jornais por onde passou –, que ainda hoje, dezessete anos depois do seu falecimento em Roma, continuam atualíssimos.
Senão, vejamos:
• Aquecer no campo para acalmar a torcida adversária – João sempre falava sobre isso. Sobre a importância de mandar o time entrar primeiro, quando jogando no campo do adversário, para tomar logo uma tremenda vaia, acostumar com ela e jogar normalmente
• Doping – João cansou de acusar a presença do doping já nos tempos em que era comentarista. Contava, inclusive, que ainda no Rio Grande, vira um jogo em que um jogador tomou uma cacetada, saiu de maca e voltou dez minutos depois, todo serelepe. Resultado: jogou de pé quebrado e cheio de femproporex
• Ver a chuteira mais adequada – a evolução do material esportivo foi impressionante. Quem viveu, como eu, os tempos das bolas Drible, das chuteiras de travas de atarraxar e os uniformes de malha pesada, sabe o que a tecnologia fez pelo esporte. Quando era comentarista, João insistia – e fez isto também na Seleção – que os times deveriam entrar em campo com a antecedência necessária para testar qual a melhor chuteira para aquele piso. Hoje em dia, com essas chuteiras coloridas e modernosas, é inacreditável que um atleta profissional escorregue em campo. No livro do André tem um caso admirável sobre como João tinha perfeito entendimento da importância do material esportivo para o atleta: um caso sobre uma meia que o Tostão usava
• A intromissão da contravenção e da política no esporte – ele tinha coragem de encarar contraventor e presidente-general. Saía na mão, dava resposta atravessada mas nunca deixada de denunciar. E alertava que isso seria o fim do futebol. De lá pra cá, está cada vez pior
• Os casos de pedofilia nas divisões de base – João acusava que as divisões de base eram um prato-cheio para pedófilos. E que eles estariam infiltrados nas divisões de base por causa da ingenuidade dos garotos. Na época, houve até um escândalo com um técnico conhecido, já coroa, que – não tendo como se explicar – abandonou o futebol. Pois não é que, recentemente, saiu um escândalo igual nas divisões de base do Corinthians?
• Onze em campo é muito – João cansava de dizer, em seus comentários, que os times de futebol eram grandes demais, que onze jogadores era porque, em Cambridge (Inglaterra) – onde o jogo foi criado – as turmas escolares eram formadas por dez alunos e um bedel (chefe de disciplina). Que o campo ficava pequeno demais, que a evolução física dos jogadores (e, digo eu, a diminuição obrigatória dos campos, pela Fifa) iria causar congestionamento. Sergio Besserman Vianna, irmão do humorista Bussunda, falando sobre isso em seu blog d´O Globo, comentou: e ainda agrego, [falando como economista, que tirar o bedel] diminui os custos (pouco menos de 10% numa tacada, coisa para executivo nenhum botar defeito) e aumenta a qualidade média de quem tá em campo (se os técnicos sacarem, como seria de esperar, o pior jogador).
• Calendários extenuantes – este era um tema que o João esbravejava sempre que podia. Naquele tempo, Botafogo e Santos jogavam, às vezes, de dois em dois dias, para fazer dinheiro. De lá pra cá, nada mudou. Os cartolas fazem sua politicalha, seus joguinhos para agradar os patrocinadores e os jogadores que se arrumem. Humanizar o futebol era uma das propostas de sempre do João
• Cartolas – e por falar em cartolas, João dizia, até mesmo quando era treinador da Seleção que “cartola é a maior praga do futebol brasileiro”. Falava, como sempre, com total conhecimento de causa. Afinal, ele aturou João Havelange e Antonio do Passo…
• A evolução do jogo – essa é a minha preferida, porque joguei basquete e sempre me bato sobre isso. O futebol só vai evoluir quando beber na fonte do basquete e do vôlei, sua evolução de treinamento, tecnologia aplicada ao jogo, comissões técnicas multidisciplinares – que não estejam necessariamente ligadas ao técnico principal, que anda por aí, pra cima e pra baixo, carregando a “sua” comissão técnica nas costas. João dizia, naquele tempo, que via o futebol indo no rumo do basquete, “todos jogando de tudo”, isto é, jogadores-coringa que são capazes de atacar e defender etc.
Enfim, como disse outro dia em e-mail pro André Siqueira, comentando o que ele havia escrito “uma biografia” do Saldanha – André esgotou totalmente o assunto João Saldanha. Com fatos, documentos, um texto excelente, bom de ler, um livro maravilhoso e bem documentado.
Como Saldanha merece!
Um abraço, até à próxima,
Cesar Oliveira
cesar.oliveira@livrosdefutebol.com