23 de Novembro de 2007

Um visionário do futebol numa biografia definitiva

Capa do livro

Olá, pessoal!

Quando João Saldanha morreu na Itália, em plena Copa do Mundo de 1990, deixou órfãos todos os que, como eu, adoravam a figura do tremendo comentarista que ele era. E que deixara marcas indeléveis em todos os que gostam de futebol.

Saldanha ficara marcado, em minha vida de torcedor, por ser o treinador campeão pelo Botafogo em 1957. Depois, pelas histórias que a gente ouvia contar sobre ele. E, já adulto, por saber do envolvimento político dele, em prol de causas de igualdade entre os homens.

João era um profeta. Ainda hoje lembro o tom da voz cansada pelo cigarro e noitadas, muito trabalho e boêmia, ralação pelo Partidão, como André Iki Siqueira mostra, brilhantemente, em João Saldanha: uma vida em jogo (capa que ilustra este texto), editado pelo o IBEP – Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas/Cia. Editora Nacional.

O livro João Saldanha: uma vida em jogo, além de lindo – como naturalmente seria por ter a digital inigualável do designer Victor Burton –, é o que os apreciadores de leitura chamariam de livraço, nos dois sentidos que a gíria pode ter: é um alentado volume de 552 páginas e gostosíssimo de ler, cheio de informações novas sobre o João Sem Medo e com as múltiplas e variadas versões dos casos em que essa figura sem igual da vida brasileira se meteu em seus 73 bem-vividos anos.

Um detalhe da personalidade de Saldanha sempre me chamou a atenção e, ainda hoje, está vivo na cabeça de todos os que, mais atentos, percebem como o João sempre tinha razão no que falava.

Ele dizia coisas – nas rádios, tevês e jornais por onde passou –, que ainda hoje, dezessete anos depois do seu falecimento em Roma, continuam atualíssimos.

Senão, vejamos:

Aquecer no campo para acalmar a torcida adversária – João sempre falava sobre isso. Sobre a importância de mandar o time entrar primeiro, quando jogando no campo do adversário, para tomar logo uma tremenda vaia, acostumar com ela e jogar normalmente

Doping – João cansou de acusar a presença do doping já nos tempos em que era comentarista. Contava, inclusive, que ainda no Rio Grande, vira um jogo em que um jogador tomou uma cacetada, saiu de maca e voltou dez minutos depois, todo serelepe. Resultado: jogou de pé quebrado e cheio de femproporex

Ver a chuteira mais adequada – a evolução do material esportivo foi impressionante. Quem viveu, como eu, os tempos das bolas Drible, das chuteiras de travas de atarraxar e os uniformes de malha pesada, sabe o que a tecnologia fez pelo esporte. Quando era comentarista, João insistia – e fez isto também na Seleção – que os times deveriam entrar em campo com a antecedência necessária para testar qual a melhor chuteira para aquele piso. Hoje em dia, com essas chuteiras coloridas e modernosas, é inacreditável que um atleta profissional escorregue em campo. No livro do André tem um caso admirável sobre como João tinha perfeito entendimento da importância do material esportivo para o atleta: um caso sobre uma meia que o Tostão usava

A intromissão da contravenção e da política no esporte – ele tinha coragem de encarar contraventor e presidente-general. Saía na mão, dava resposta atravessada mas nunca deixada de denunciar. E alertava que isso seria o fim do futebol. De lá pra cá, está cada vez pior

Os casos de pedofilia nas divisões de base – João acusava que as divisões de base eram um prato-cheio para pedófilos. E que eles estariam infiltrados nas divisões de base por causa da ingenuidade dos garotos. Na época, houve até um escândalo com um técnico conhecido, já coroa, que – não tendo como se explicar – abandonou o futebol. Pois não é que, recentemente, saiu um escândalo igual nas divisões de base do Corinthians?

Onze em campo é muito – João cansava de dizer, em seus comentários, que os times de futebol eram grandes demais, que onze jogadores era porque, em Cambridge (Inglaterra) – onde o jogo foi criado – as turmas escolares eram formadas por dez alunos e um bedel (chefe de disciplina). Que o campo ficava pequeno demais, que a evolução física dos jogadores (e, digo eu, a diminuição obrigatória dos campos, pela Fifa) iria causar congestionamento. Sergio Besserman Vianna, irmão do humorista Bussunda, falando sobre isso em seu blog d´O Globo, comentou: e ainda agrego, [falando como economista, que tirar o bedel] diminui os custos (pouco menos de 10% numa tacada, coisa para executivo nenhum botar defeito) e aumenta a qualidade média de quem tá em campo (se os técnicos sacarem, como seria de esperar, o pior jogador).

Calendários extenuantes – este era um tema que o João esbravejava sempre que podia. Naquele tempo, Botafogo e Santos jogavam, às vezes, de dois em dois dias, para fazer dinheiro. De lá pra cá, nada mudou. Os cartolas fazem sua politicalha, seus joguinhos para agradar os patrocinadores e os jogadores que se arrumem. Humanizar o futebol era uma das propostas de sempre do João

Cartolas – e por falar em cartolas, João dizia, até mesmo quando era treinador da Seleção que “cartola é a maior praga do futebol brasileiro”. Falava, como sempre, com total conhecimento de causa. Afinal, ele aturou João Havelange e Antonio do Passo…

A evolução do jogo – essa é a minha preferida, porque joguei basquete e sempre me bato sobre isso. O futebol só vai evoluir quando beber na fonte do basquete e do vôlei, sua evolução de treinamento, tecnologia aplicada ao jogo, comissões técnicas multidisciplinares – que não estejam necessariamente ligadas ao técnico principal, que anda por aí, pra cima e pra baixo, carregando a “sua” comissão técnica nas costas. João dizia, naquele tempo, que via o futebol indo no rumo do basquete, “todos jogando de tudo”, isto é, jogadores-coringa que são capazes de atacar e defender etc.

Enfim, como disse outro dia em e-mail pro André Siqueira, comentando o que ele havia escrito “uma biografia” do Saldanha – André esgotou totalmente o assunto João Saldanha. Com fatos, documentos, um texto excelente, bom de ler, um livro maravilhoso e bem documentado.

Como Saldanha merece!

Um abraço, até à próxima,

Cesar Oliveira
cesar.oliveira@livrosdefutebol.com

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