14 de Janeiro de 2008

OS LIVROS DO FUTURO

Arquivado sob: Livro, Livros, Literatura — Cesar Oliveira @ 09:24

Prezados Leitores:

Por oportuno, reproduzo coluna do jornalista e produtor musical Nélson Motta, na Folha de São Paulo, sob o título OS LIVROS DO FUTURO. Com a palavra, Nélson Motta:

É um livro? É um site? É um livro virtual!

Talvez por sua origem gutemberguiana, a indústria do livro está demorando a descobrir e a usar os recursos digitais que estão à sua disposição. E que são o complemento ideal para vários gêneros literários.

Melhor do que ler uma boa biografia é ler a história de um Picasso – e ver num site todos os seus quadros, esculturas e fotos de seus modelos e cenários. Se tudo isso fosse impresso, seria inacessível, em volume e preço. Com o site, é acessível e grátis para todos, um complemento da edição impressa. Como fazem as revistas e jornais. Melhor do que ler a biografia de um Cole Porter é também ouvir as suas músicas, ver suas fotos e vídeos. Ou a vida de Orson Welles, com seus roteiros e trechos de seus filmes.

Melhor ainda para os livros de história – com seus documentos, mapas, quadros, links para sites específicos: os extras do livro. Nunca mais os livros de história serão os mesmos.

Porque esta é a linguagem e a expectativa das novas gerações, alfabetizadas digitais, habituadas a encontrar com um clic as palavras, sons e imagens que procuram.

Ao contrário da música, que passou por vários formatos e suportes, do gramofone ao CD e ao “pen drive”, os bons e velhos livros não mudaram muito nos últimos séculos, apenas se desenvolveram nos processos de impressão e tiveram inovações discretas nas artes gráficas. O resto, que é quase tudo – palavras no papel –, continua como sempre. Como no jogo do bicho, continua valendo o escrito.

O livro continuará com cheiro de livro, com a textura do papel, poderá ser lido em qualquer lugar, sem precisar de tomada nem de bateria. O livro de papel não vai acabar tão cedo. Mas terá na internet o seu melhor complemento.

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Cordialmente,
Cesar Oliveira
www.livrosdefutebol.com

23 de Novembro de 2007

Um visionário do futebol numa biografia definitiva

Capa do livro

Olá, pessoal!

Quando João Saldanha morreu na Itália, em plena Copa do Mundo de 1990, deixou órfãos todos os que, como eu, adoravam a figura do tremendo comentarista que ele era. E que deixara marcas indeléveis em todos os que gostam de futebol.

Saldanha ficara marcado, em minha vida de torcedor, por ser o treinador campeão pelo Botafogo em 1957. Depois, pelas histórias que a gente ouvia contar sobre ele. E, já adulto, por saber do envolvimento político dele, em prol de causas de igualdade entre os homens.

João era um profeta. Ainda hoje lembro o tom da voz cansada pelo cigarro e noitadas, muito trabalho e boêmia, ralação pelo Partidão, como André Iki Siqueira mostra, brilhantemente, em João Saldanha: uma vida em jogo (capa que ilustra este texto), editado pelo o IBEP – Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas/Cia. Editora Nacional.

O livro João Saldanha: uma vida em jogo, além de lindo – como naturalmente seria por ter a digital inigualável do designer Victor Burton –, é o que os apreciadores de leitura chamariam de livraço, nos dois sentidos que a gíria pode ter: é um alentado volume de 552 páginas e gostosíssimo de ler, cheio de informações novas sobre o João Sem Medo e com as múltiplas e variadas versões dos casos em que essa figura sem igual da vida brasileira se meteu em seus 73 bem-vividos anos.

Um detalhe da personalidade de Saldanha sempre me chamou a atenção e, ainda hoje, está vivo na cabeça de todos os que, mais atentos, percebem como o João sempre tinha razão no que falava.

Ele dizia coisas – nas rádios, tevês e jornais por onde passou –, que ainda hoje, dezessete anos depois do seu falecimento em Roma, continuam atualíssimos.

Senão, vejamos:

Aquecer no campo para acalmar a torcida adversária – João sempre falava sobre isso. Sobre a importância de mandar o time entrar primeiro, quando jogando no campo do adversário, para tomar logo uma tremenda vaia, acostumar com ela e jogar normalmente

Doping – João cansou de acusar a presença do doping já nos tempos em que era comentarista. Contava, inclusive, que ainda no Rio Grande, vira um jogo em que um jogador tomou uma cacetada, saiu de maca e voltou dez minutos depois, todo serelepe. Resultado: jogou de pé quebrado e cheio de femproporex

Ver a chuteira mais adequada – a evolução do material esportivo foi impressionante. Quem viveu, como eu, os tempos das bolas Drible, das chuteiras de travas de atarraxar e os uniformes de malha pesada, sabe o que a tecnologia fez pelo esporte. Quando era comentarista, João insistia – e fez isto também na Seleção – que os times deveriam entrar em campo com a antecedência necessária para testar qual a melhor chuteira para aquele piso. Hoje em dia, com essas chuteiras coloridas e modernosas, é inacreditável que um atleta profissional escorregue em campo. No livro do André tem um caso admirável sobre como João tinha perfeito entendimento da importância do material esportivo para o atleta: um caso sobre uma meia que o Tostão usava

A intromissão da contravenção e da política no esporte – ele tinha coragem de encarar contraventor e presidente-general. Saía na mão, dava resposta atravessada mas nunca deixada de denunciar. E alertava que isso seria o fim do futebol. De lá pra cá, está cada vez pior

Os casos de pedofilia nas divisões de base – João acusava que as divisões de base eram um prato-cheio para pedófilos. E que eles estariam infiltrados nas divisões de base por causa da ingenuidade dos garotos. Na época, houve até um escândalo com um técnico conhecido, já coroa, que – não tendo como se explicar – abandonou o futebol. Pois não é que, recentemente, saiu um escândalo igual nas divisões de base do Corinthians?

Onze em campo é muito – João cansava de dizer, em seus comentários, que os times de futebol eram grandes demais, que onze jogadores era porque, em Cambridge (Inglaterra) – onde o jogo foi criado – as turmas escolares eram formadas por dez alunos e um bedel (chefe de disciplina). Que o campo ficava pequeno demais, que a evolução física dos jogadores (e, digo eu, a diminuição obrigatória dos campos, pela Fifa) iria causar congestionamento. Sergio Besserman Vianna, irmão do humorista Bussunda, falando sobre isso em seu blog d´O Globo, comentou: e ainda agrego, [falando como economista, que tirar o bedel] diminui os custos (pouco menos de 10% numa tacada, coisa para executivo nenhum botar defeito) e aumenta a qualidade média de quem tá em campo (se os técnicos sacarem, como seria de esperar, o pior jogador).

Calendários extenuantes – este era um tema que o João esbravejava sempre que podia. Naquele tempo, Botafogo e Santos jogavam, às vezes, de dois em dois dias, para fazer dinheiro. De lá pra cá, nada mudou. Os cartolas fazem sua politicalha, seus joguinhos para agradar os patrocinadores e os jogadores que se arrumem. Humanizar o futebol era uma das propostas de sempre do João

Cartolas – e por falar em cartolas, João dizia, até mesmo quando era treinador da Seleção que “cartola é a maior praga do futebol brasileiro”. Falava, como sempre, com total conhecimento de causa. Afinal, ele aturou João Havelange e Antonio do Passo…

A evolução do jogo – essa é a minha preferida, porque joguei basquete e sempre me bato sobre isso. O futebol só vai evoluir quando beber na fonte do basquete e do vôlei, sua evolução de treinamento, tecnologia aplicada ao jogo, comissões técnicas multidisciplinares – que não estejam necessariamente ligadas ao técnico principal, que anda por aí, pra cima e pra baixo, carregando a “sua” comissão técnica nas costas. João dizia, naquele tempo, que via o futebol indo no rumo do basquete, “todos jogando de tudo”, isto é, jogadores-coringa que são capazes de atacar e defender etc.

Enfim, como disse outro dia em e-mail pro André Siqueira, comentando o que ele havia escrito “uma biografia” do Saldanha – André esgotou totalmente o assunto João Saldanha. Com fatos, documentos, um texto excelente, bom de ler, um livro maravilhoso e bem documentado.

Como Saldanha merece!

Um abraço, até à próxima,

Cesar Oliveira
cesar.oliveira@livrosdefutebol.com

17 de Novembro de 2007

Escrever sobre a maior paixão esportiva nacional

Meus amigos… (como diria o grande João Saldanha):

Estava eu posto em sossego, recuperando-me de uma operação, dando tratos à bola e lendo – outra grande paixão – quando a idéia me chegou pronta. Naquele instante, eu tive a resposta a uma pergunta que sempre me fiz – como é que os compositores fazem letra e música ao mesmo tempo, a idéia saindo pronta e completa, para só depois ser aprimorada?

Foi isso o que me ocorreu quando uma lâmpada acendeu subitamente sobre a minha cabeça recostada nos travesseiros, notebook no colo, batucando o teclado, lendo jornais, sites e blogs, e respondendo e-mails.

– Por que não fazer um site sobre livros de futebol? E por que não editar eu mesmo os meus próprios livros?

A experiência vem de longe. Mais precisamente desde 1980, quando aceitei o convite para dirigir o que então era a Gerência de Publicidade da Editora da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro.

Foi notável, não apenas porque tínhamos ali editora e livraria juntas num mesmo local, o que me permitiu aprender os dois lados da questão: o fazer e o comercializar. Isso sem contar que, durante um bom tempo, fui dirigido pelo notável escritor J. J. Veiga (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_J._Veiga).

Eu havia sido mordido pela leitura ainda criança. Meus pais, apesar de não terem tido as oportunidades de estudo que ofereceram aos meus dois irmãos e a mim, sabiam que literatura, cultura era importante. E nos proporcionavam livros, música, cinema, jornal – primeiro, o Correio da Manhã, depois o velho Jornal do Brasil, aquele da condessa. Havia muito Monteiro Lobato, e como aquilo era bom!

Em 1957, meu pai entra correndo na vila de casas e um bloco de seis apartamentos onde morávamos em Vila Isabel. Era 22 de dezembro, fazia calor e ele gritava como um possesso, rodando sobre a cabeça uma camisa listrada em preto-e-branco: o Botafogo de Futebol e Regatas, time pelo qual ele torcia, havia acabado de se tornar campeão carioca, ao golear o Fluminense por 6 a 2, com cinco gols de Paulinho Valentim e um de Mané Garrincha. Ele entrou em casa como um doido e, me vendo, me vestiu a camisa do artilheiro, de uma vez só, e abraçou minha mãe, que não ligava muito pra futebol.

Ainda hoje, quase cinqüenta anos depois, lembro da textura, do peso e do cheiro da camisa. Era a camisa 8, com que Paulinho detonou o Fluminense. Pronto! Eu acabava de me tornar Botafoguense, como meu pai. Meus dois irmãos optaram pelo Fluminense (o mais velho) e pelo Flamengo (o mais novo).

Futebol e literatura deviam andar mais juntos do que andam no país do futebol. Se vendêssemos mensalmente, em livros, um pouco, um pouco só do que se arrecada semanalmente nas bilheterias dos estádios, a indústria do livro no Brasil estaria muito além do que está.

Não vou cair agora na discussão se o livro é caro ou barato no Brasil, se o brasileiro lê muito ou pouco. Todo mundo sabe que isso é um efeito tostines que, um dia, a gente vai ter que sentar para debater e resolver. Num futuro post, a gente levanta esse papo aqui.

Vai ser bom ler o que vocês pensam. Porque o Brasil precisa de educação. E a educação através da leitura é um grande aprendizado, uma arma poderosíssima. Quem lê muito, escreve e fala bem. Pensa e, logo, existe. Não se deixa enrolar por politiqueiros, na vida pública e até no futebol. Separa o joio do trigo. Cresce. E começa a fazer tudo o que de bom precisam a sua casa, o seu prédio, o seu bairro, a sua cidade, o seu estado, o seu País.

Eu gosto de livros. E gosto de futebol. Por isso, fiz o que chamo de “site-editora”. Para juntar duas paixões. Quero editar o que não foi editado. Quero editar literatura que tenha o futebol como pano de fundo. Quero honrar os craques esquecidos. Quero contemplar a excelente produção acadêmica que se faz nas universidades brasileiras sobre o futebol.

Estou aberto, claro, sempre, a críticas e sugestões. A receber originais de novos ou consagrados escritores. Estou no mercado e pretendo colocar, nos livros que editar, as idéias que desenvolvi a partir do aprendizado adquirido trabalhando em e para editoras. Lendo livros, jornais, revistas. E vendo futebol.

Sejam bem-vindos ao Blog do LivrosdeFutebol.Com. Escrevam-me. E até à próxima!

Um abraço,
Cesar Oliveira
cesar.oliveira@livrosdefutebol.com

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